Sábado, Setembro 19, 2009
Reflexão de final de semana
Será que alguém alguma vez olhou para relances de sua própria vida no tempo e gostou dela? Quando abri os olhos hoje, vi tudo Verde-vazio-macabéia.
Algumas pessoas
Algumas pessoas são maníacas. Outras são seguras de si. Algumas pessoas têm bons pais. Outras são verdadeiras palermas. Algumas pessoas são doces. Outras aprendem a ser cínicas para sobreviver, como um único modelo de diálogo possível. Como eu.
Planos
Esse ano eu ia escrever. Esse ano eu ia começar o doutorado ou fazer finalmente meu curso de artes, depois de total maturidade para poder dizer em voz alta que eu o faria. Não ia me apaixonar. Ia conseguir morar sozinha. Continuo desenhando mal e chorando pelos cantos porque o amor é uma roupa que não me serve bem.
Insônia
O que tem lá fora, quando o sino da igreja toca? Eu não sei. Estou trancada no quarto, numa cama que não é minha. De repente vem aquela sensação que eu já conheço, que do lado tem um estranho e eu quero sair correndo pela porta. É assim que as paixões acabam. Ou que as minhas se tornam saudáveis. Eu acordo com um sino que toca e volto para a rua, lembrando que ainda existo, ou que tenho mãos para escrever.
Segunda-feira, Julho 27, 2009
Control
Eu vou me arrepender, anos mais tarde. Arrepender de ter largado muito, mas não ter largado tudo. Arrepender de ter corrido das aulas de balet, colada na parede gritando feito lagartixa. De ter enrolado pra estudar violão, de ter pensado que musicista não é profissão que se preze. De ter me gabado quando achei que podia dizer tudo que quisesse e escondido muita coisa ainda pra dizer, controlando demais a boca. Arrepender de ter apaixonado, dos domingos que dormi até as duas, de ter postergado, de ter perdido aquele jogo de xadrez propositalmente porque queria comer logo meus alfajores. Me arrependerei de ter negligenciado vontades e permitido irritações. Mas não vou querer uma coroa de flores ou um vaso resistente de plástico pela consciência da desgraça. Meu relógio não dorme mais cedo. Ignorante ou Inteligente. A merda toda é o tempo que a gente tem e que nunca pode pegar, só depois que ele passa.
Sábado, Julho 25, 2009
José de joana e a Rosa do Povo
Eu que saí com ele, conheci o outro. O outro não era bem muito eu, então fiquei melhor amiga do melhor amigo dele. O irmão do ele virou paixonite de alguns meses. Todos eram amigos (o ele, o outro e o irmão dele). Depois estacionou em amor desprendido. O outro por fim, me apresentou aquele. Então eu amo todos eles. Eu ando entre a sujeira de São Paulo pensando em tudo isso.
Poupando
A paciência não é uma virtude. Não minha. Não quero descansar. Vou poupar a vida para gastar na morte? E eu não sei dar um fim melhor a esse pensamento, que saí correndo pela porta. Fui caçar sapos no pântano.
Faça um desejo
Cada sonho vai para uma caixa. No final, acho que uma sapateira só não dá. As tabelas são infinitas. Um logarítimo não linka meu nome a um pedido. Vou precisar de uma mansão só para as caixas.
Conjecturando
Eu deitei. O sono não veio. Meio de sonho, meio desperta. A brisa era vento forte. E a chuva, torta de inverno que eu nunca vi, tempestade. Eu nunca sou uma boa namorada. Gosto de fazer bolinhos de lama. Há quem queira brincar de casinha comigo...
Segunda-feira, Julho 20, 2009
Inverno
Sensação térmica de 10 graus. Eu sempre escondo o livro na caixa debaixo da mesa, onde moram meu terno e meus sapatos durante a noite, quando toca a sineta do elevador. Já sei distinguir o barulho das portas fechando (quando ele desce ou sobe buscando alguém que vai se deparar comigo na secretaria) do barulho das portas quando abrem, trazendo alguém que vai atrapalhar a leitura. Agora eu tenho um casaco que vai até os pés. Eu cresci o suficiente para juntar algumas rugas de expressão. Estou envelhecendo, mas minhas bochechas ainda ficam vermelhas no vento de inverno. Assim como meu nariz, atacado de rinite. Eu só tenho bochechas. Tem muito ar podre aqui. Meus pulmões não estão ensolarados. Hoje é segunda-feira. Os bares estão vazios. Tem um vento de solidão na rua e eu fico tão em paz. Nem os trombadinhas estão por aí. E tem gente que não consegue ficar só. É quase a única liberdade que a gente tem. Eu não gosto de morar com mulheres. Sempre tem um resquício de debilidades de espírito amoroso. Historinhas que jamais passam pela cabeça dos homens (a não ser pela cabeça do meu irmão, nessa geração que antecipa todos os passos com medo da liberdade atrapalhar o sucesso). A solidão bem pensada é a liberdade de quem se permite. Eu adoro o silencio da casa quando todo mundo viaja. Adoro o silêncio do escuro. Organizo os sentimentos, na luz enviesada. Jogo pensamentos fora no escuro total. Como as vozes nunca se calam, no quarto ao lado, aproveitei bem a solidão do caminho para casa no vento, com a trilha sonora da minha cabeça, imaginando esse texto que saiu bem melhor nos dez quarteirões que me fugiram no frio.
Terça-feira, Junho 23, 2009
Das mesmas origens das coisas
Talvez seria importante expressar minha opinião sobre José Sarney, nepotismo, violência urbana e a corrupção dos princípios. Contar um caso sobre um causo extraordinário que nos faz titubear em relação aos direitos humanos (no nível daqueles assassinatos de mulheres grávidas e atropelamentos de crianças). Tudo isso soa pouco pessoal. Eu lendo jornal no intervalo da recepção. Teria um blogue sobre a politicagem da opinião jornalística de coluna... Um dia, quem sabe. Mas a razão é cheia das minúcias. E é delas que saem as permissividades da falta de ética e da própria opinião. O destempero da mímica do amor é um dos casos verdade mais patéticos, nesse sentido, junto com as conversas pragmáticas de bar. As pessoas negam-se a se dedicarem à simplicidade do apreço. Inventam regras de comportamento egocêntrico, querem achar a si mesmas no outro. Depois de tudo, ainda inventam maneiras de se comportarem para convencer o amor do outro a te amar. É daí que surgem as fórmulas maravilhosas das mulheres (desculpe-me a generalização). Não ligue depois, não seja difícil, não seja fácil (seguindo toda a funcionalidade negativa da paixão). Ou é daí que surgem as pérolas do medo que os homens têm das mulheres (desculpe-me a generalização) travestidas de amor livre. Não quero compromisso (seja lá o que isso for), quero amar duas ao mesmo tempo (programática da paixão "livre"), um dia quero você, um dia não quero (óbvio!). Nesse paralelo também imbecil, refresco minhas conjecturas sobre o comportamento esperado. Cotidianamente pessoal. Extraordinariamente sério e político de final de semana. Esse é o manual do manual da opinião.
Quinta-feira, Junho 18, 2009
Telescópio
Um dia, num tédio de tristezinha, descobri e inventei que estava vazia. Se pegasse do fundo para a boca e virasse do avesso, implodiria. Então eu escrevi. Se soubesse que ia estar tão vazia num momento tão ameno, num nível de alma que se confunde com as moscas, tinha esperado para descrever o vazio mais vazio, de outro ângulo. Nem o vazio é definitivo.
Telefonema
Eu disse oi. Precisava do telefone de fulano para fins profissionais. Ela perguntou quem. Eu disse que era eu. Meio estranhadas do telefonema depois de séculos, despedi e não fez diferença alguma. Foi assim que eu aprendi a contabilizar a superficialidade das relações vazias. Sem culpa ou pena nenhumas.
Melvim
Então a paixão foi embora. E meu amigo imaginário, sentado no mesmo banco de jardim que eu, repete sem descruzar as pernas: “eu avisei”.
Lírica São Paulo
Antes de pensar sobre o que a noite reserva pra mim, eu suspiro um rastro de naftalina com urina. A poeira é de colchão de albergue com pó-de-arroz. Essa cidade não tem melodia e métrica, mas tem e como tem poesia. Não há nada de científico na flacidez dos propósitos. Nem na ligeireza dos passos, no delírio dos desejos, pecado dos meios. Nem no apolítico dos princípios. Os destroços não são invariáveis da matemática dos sonhos ou da mímica dos gestos repetidos nos cafés. E aquele que vai galgando, segue fazendo poesia concreta e neurótica de prestígio e satisfação.
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